Aniversário da cidade

Ruínas de um curtume contam parte da história de Teixeira no aniversário de 41 anos; por Domingos Cajueiro

09/05/2026 - 14h02Por: Sulbahianews

Neste sábado, 9 de maio, a cidade de Teixeira de Freitas celebra 41 anos de emancipação política. Em meio às comemorações, um resgate histórico ajuda a compreender as origens e os caminhos que moldaram o município. O relato é de Domingos Cajueiro Correia, reconhecido como o primeiro policial rodoviário da cidade, integrante da Polícia Rodoviária Federal desde 1º de outubro de 1979, onde permanece em atividade até hoje.

Filho de um dos pioneiros da região, José Félix Correia, da Fazenda Nova América, Cajueiro preserva na memória uma narrativa que atravessa gerações: a história de um curtume instalado às margens do Rio Itanhém, na localidade conhecida como Prainha. Hoje, o que restou dessa atividade são ruínas silenciosas, encravadas na paisagem, mas que ainda testemunham um período de trabalho intenso e criatividade em meio à escassez.

O curtume, espaço dedicado ao tratamento de couro, acompanha a própria evolução das sociedades humanas. Desde a antiguidade, povos como egípcios e romanos já utilizavam peles para vestuário e abrigo. Técnicas rudimentares de curtimento eram empregadas para evitar a decomposição e garantir maior durabilidade ao material. Durante a Idade Média, esses espaços se espalharam pela Europa, geralmente próximos a rios, devido à grande necessidade de água e aos fortes odores gerados pelo processo. O trabalho era essencialmente artesanal, transmitido entre famílias ao longo das gerações.

No baixo extremo sul da Bahia, essa tradição também deixou marcas. Na década de 1960, foi instalado o curtume na Fazenda Nova América, em Teixeira de Freitas. Em um período em que não havia cimento disponível no povoado, a produção se adaptava aos recursos locais. Madeiras do tipo Ibiraçu eram retiradas das florestas para a confecção de cochos, utilizados no tratamento das peles de animais como veado, cotia, corsa e carneiro, adquiridas de caçadores.

O processo começava com a secagem das peles, seguida pela imersão em cochos contendo soda cáustica — comprada em Juerana — ou cinzas misturadas à água, durante alguns dias. Essa etapa tinha como objetivo remover completamente resíduos de carne e pelos. Em seguida, o material era transferido para outro recipiente com cascas de árvores como vinhático ou angico, responsáveis por conferir uma coloração avermelhada ao couro. Para obter peles claras, utilizava-se pedra hume, e a secagem era feita à sombra. O resultado final era um couro macio, pronto para comercialização.

A produção era então levada para Juerana, onde era vendida ao senhor Caja, que fabricava sapatos e sandálias, e ao senhor Cadete, responsável pela confecção de selas, arreios, barrigueiras e assentos.

Com o passar do tempo, o curtume passou por expansão. Isael de Freitas Correia adquiriu cimento em Juerana e o transportou no lombo de animais até Teixeira de Freitas. A partir daí, seu irmão Clodoaldo construiu a base fixa da estrutura. O empreendimento ganhou força e passou a comprar couro bovino da Fazenda Cascata, onde um ou dois animais eram abatidos semanalmente.

Com o aumento da produção, Isael e Clodoaldo enfrentavam jornadas de até dois dias para transportar o material até Juerana, também utilizando animais. De lá, a carga seguia para Caravelas por meio do trem conhecido como Maria Fumaça Pochixa, sendo comercializada na Rua Porto.

Décadas depois, restam apenas as bases do antigo curtume às margens do Rio Itanhém. As estruturas, embora deterioradas pelo tempo, mantêm viva a memória de um período em que trabalho, resistência e adaptação marcaram o desenvolvimento de Teixeira de Freitas — uma história que segue sendo contada por aqueles que ajudaram a construí-la.