Em apenas um ano, Brasil registra mais feminicídios do que mortos da ditadura militar

Nos primeiros meses de 2026, temos testemunhado um crescente número de casos de feminicídio em nosso país.
Semana após semana, novas ocorrências ganham manchetes, revelando um padrão que se repete: perseguições, ameaças, violência doméstica e, por fim, o desfecho fatal.
Esse cenário vem logo após 2025 ter registrado o maior número de feminicídios da série histórica no Brasil. Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, cerca de 1.470 mulheres foram assassinadas em apenas um ano, uma média aproximada de quatro mortes por dia.
Foi um recorde histórico: o ano mais letal desde que o crime passou a ser tipificado. O mais impactante é que, em apenas um ano, o Brasil registrou mais mortes por feminicídio do que o total de mortos e desaparecidos políticos ao longo de décadas em algumas das ditaduras militares latino-americanas durante a Guerra Fria, segundo dados oficiais de comissões da verdade e relatórios estatais.
De acordo com a Comissão Nacional da Verdade, o regime militar brasileiro (1964–1985) foi responsável por 434 mortos e desaparecidos políticos.
No Paraguai, a Comissão de Verdade e Justiça apontou mais de 400 mortos e desaparecidos durante a ditadura de Alfredo Stroessner.
No Uruguai, relatórios oficiais indicam cerca de 200 a 300 mortos políticos durante o regime militar.
Na Bolívia, estimativas históricas registram aproximadamente mil opositores mortos ao longo dos sucessivos governos militares.
Somente em 2025, portanto, o número de mulheres assassinadas no Brasil superou, isoladamente, os totais acumulados em décadas de repressão política nesses países.
Ou seja, um único ano recente de feminicídios no Brasil ultrapassou o número de mortos oficialmente reconhecidos por regimes que duraram décadas ao longo do século XX.
É evidente que essa comparação não relativiza os crimes das ditaduras militares na América Latina, marcadas por repressão, tortura e perseguição política. Ela visa apenas evidenciar a dimensão da violência de gênero em nosso país.
Estamos falando de uma violência contínua, cotidiana, que acontece em tempos de democracia.
O feminicídio não é um episódio isolado. É um problema estrutural, cultural e criminal que exige respostas firmes. A gravidade desses números impõe uma reflexão séria sobre prevenção, proteção às vítimas e também sobre a necessidade de políticas públicas eficazes.
Se, em plena democracia, quase quatro mulheres são assassinadas por dia, isso já não pode ser tratado apenas como estatística criminal. É o retrato de uma sociedade doente e a naturalização da violência contra a mulher é um de seus sintomas.

