Por trás desse cenário, há uma disputa entre um grupo criminoso que cresceu na região nos últimos anos junto ao avanço do turismo e novos faccionados que tentam ocupar a área, segundo moradores e fonte policial ouvidos pela BBC News Brasil.
“Isso aqui virou um campo de guerra”, resume um morador. Os nomes dos entrevistados não serão revelados por questão de segurança.
É um cenário que se repete em outros destinos turísticos badalados no Nordeste brasileiro, como a BBC News Brasil mostrou em relação a Porto de Galinhas (PE), Pipa (RN) e Jericoacoara (CE).
Circulação de turistas com alto poder aquisitivo, festas com consumo de drogas e pouca presença do poder público fazem desses paraísos uma mina de ouro para os grupos criminosos.
“É uma região com o turismo de um poder aquisitivo muito alto, e aí você vê uma disputa para dominar a terra, o espaço e, sobretudo, para poder vender drogas”, comenta o delegado Diego Gordilho, da Polícia Federal em Porto Seguro.
Mas em Caraíva ainda há um outro componente: a vila turística é vizinha a uma aldeia indígena, a Xandó, parte da terra indígena Barra Velha, dentro do Parque Nacional do Monte Pascoal, ponto avistado por Pedro Álvares Cabral ao chegar ao Brasil.
Onde há uma terra indígena, há certas limitações de fiscalização e presença policial do Estado, já que a competência é da Polícia Federal ou das forças armadas. E grupos criminosos têm tentado se aproveitar disso, segundo o delegado Gordilho.
Em toda a região, o extremo sul do litoral baiano, os conflitos entre fazendeiros e indígenas pela posse da terra também são históricos e muitas vezes acabam em tiros e morte.
No fim de fevereiro, por exemplo, duas turistas do Rio Grande do Sul foram baleadas ao passar de carro por um local de disputa de terras entre indígenas e fazendeiros em Prado, cidade vizinha a Porto Seguro.
Agora, além da histórica pressão fundiária, a comunidade de Caraíva também vive a ameaça e presença das facções.
“A violência das facções em Caraíva também está cercada dessa outra violência, a de fazendeiros contra nativos e o povo pataxó”, explica o professor Paulo Dimas Menezes, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), em Porto Seguro, que pesquisa gentrificação causada pelo turismo na região.

De forma geral, Caraíva e os outros destinos nordestinos continuam desejados, movimentados, e grande parte dos turistas irá curtir suas férias sem nem perceber a presença de facções, como relatado por moradores de todas as praias. A não ser que a situação saia do controle.
Só em três operações policiais letais conduzidas pela Polícia Federal junto à Polícia da Bahia em 2025 foram 12 mortos em Caraíva — um número que coloca a praia com mais mortes decorrentes de operações da polícia do que o Estado inteiro do Acre ou de Roraima, segundo dados do Ministério da Justiça.
Segundo o censo 2022 do IBGE, o distrito de Caraíva tem 13.214 habitantes. Esse número abrange áreas que vão além da região da praia, que, na prática, tem bem menos pessoas morando.
A Polícia da Bahia é hoje a que mais mata em operações no Brasil, segundo dados do Ministério da Justiça. Foram 1.569 mortes em 2025, muito à frente de São Paulo (835), Estado mais populoso do país, e do Rio de Janeiro (798), onde ocorreu a megaoperação contra o Comando Vermelho em outubro.
Em 2024, Porto Seguro foi a 6ª cidade com a maior taxa de mortes decorrentes de operações policiais no Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Pela taxa geral de homicídios, a cidade é a 14ª mais violenta do país, junto a outras oito cidades baianas no top 20.


