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Idealizador da Batalha do Faraó, Brock MC fala sobre resistência e o futuro do hip-hop em Teixeira

21/10/2026 - 14h58Por: Sulbahianews/Luiz Oss

Aos 20 anos, Jonathan dos Santos Pereira, mais conhecido como Brock MC, já construiu uma trajetória marcada pela poesia, pela cultura hip-hop e pelo compromisso com a transformação social. Quilombola e teixeirense, é poeta, MC, educador e estudante de Letras. Sua relação com a rima começou aos 12 anos, quando participou de sua primeira batalha e descobriu no rap o caminho que desejava seguir. Desde então, conquistou mais de 50 títulos de rima na região, tornou-se campeão do Slam Marginal. Idealizador da Batalha do Faraó, Brock MC integra a organização em prol do fortalecimento da cultura hip-hop em Teixeira de Freitas. Para além dos palcos e das competições, Brock também promove oficinas voluntárias de rap e literatura em escolas e projetos comunitários, levando a potência da cultura periférica para os espaços educativos e acadêmicos.

O jornalista Luiz Oss fez entrevistou o artista para conhecer mais a respeito do cenário hip-hop em Teixeira de Freitas e sobre a Batalha do Faraó, que possui valor cultural inestimável em nosso município:

1) Brock MC, a Batalha do Faraó transformou as praças da cidade em espaços de encontro entre MCs, público e cultura urbana. Após a fundação do projeto, o que mudou na cena do hip-hop em Teixeira de Freitas desde então?

Criei a Batalha do Faraó justamente por sentir falta de um movimento cultural de rap na cidade. Já existiram outras batalhas, mas que, por algum motivo, foram abandonadas e deixaram de funcionar. Ficamos dois anos sem batalhas na cidade e, por sentir falta desse espaço, que é um pilar importante para a manutenção da minha vida, reuni a galera novamente, convidei o máximo de pessoas e realizamos nossa primeira edição no dia 8 de janeiro.

Depois disso, emplacamos 13 edições, com algumas pausas devido à correria da vida, mas sempre nos mantendo vivos e ativos. Foram muitos os relatos de pessoas que não sabiam da existência de batalhas na cidade, de pessoas que se inspiraram nos MCs, de novos MCs que começaram a rimar e de artistas da antiga geração que voltaram. É uma questão de reexistência.

O que realmente mudou na cena foi a retomada de um movimento ativo, uma vez que as batalhas estavam extintas. Recebemos convites da Academia Teixeirense de Letras para nos apresentar, além de convites de escolas municipais e estaduais. Mas a principal mudança ocorreu na vida das pessoas que fazem esse movimento acontecer.

2) Você é um dos principais fundadores da Batalha do Faraó. Como surgiu esta iniciativa e o que mudou ao longo dos anos desde o lançamento da competição?

Essa iniciativa surgiu pela ausência de batalhas na cidade. Colocamos o nome de Faraó pelo cunho humorístico e pela referência à ancestralidade africana. Na realidade, ela só começou oficialmente este ano, em 8 de janeiro, e já realizamos 13 edições. Mas, antes disso, a mesma galera que está comigo hoje já participava de outros encontros.

3) O hip-hop costuma ser reconhecido pelo que produz nas ruas, mas nem sempre recebe estrutura, investimento ou espaço na agenda cultural da cidade. Na sua avaliação, Teixeira de Freitas já reconhece o rap como manifestação artística ou ainda o enxerga como algo marginal?

Acredito que estamos ganhando muito espaço aqui. Fazemos rap em uma cidade do interior da Bahia, algo que, há alguns anos, seria impossível. Teixeira é uma das poucas cidades da Bahia em que a extrema direita ganhou nas eleições, né? Acredito que a cidade ainda é bem conservadora em relação ao rap e aos movimentos culturais de periferia de forma geral, mas também acredito que isso pode mudar. A tendência é essa quando seguimos resistindo.

Já chegamos a lugares em que não imaginávamos chegar, atingindo pessoas que não imaginávamos atingir. Então, a chave é continuar para que o rap seja visto da forma que ele é: um salvador, capaz de educar e salvar muitas vidas na cidade.

4) Nas batalhas de rima, o MC precisa transformar pensamento, repertório e vivência em versos. O que as rimas revelam sobre a realidade da juventude de Teixeira de Freitas que dificilmente chega ao grande público?

Sempre digo que rimar, para mim, é mais fácil do que fazer qualquer outro tipo de discurso. Na rima, você consegue trazer coisas do seu íntimo, da sua vivência subjetiva, que às vezes não consegue expressar em uma conversa padrão e casual. A arte tem disso.

Nesses anos de batalha, já escutei muitos desabafos artísticos, poesias e rimas de cura interna, de raiva e de amor. As rimas mostram o que a sociedade esconde ou tenta esconder.

Acredito também que é um equívoco resumir a periferia a rimas de ódio contra o sistema. Existem muitas rimas assim, e eu até gosto desse rap “ilícito”. Falar de good vibes é difícil por conta do contexto em que estamos inseridos, mas a quebrada também escreve sobre amor, sonhos, memória afetiva e esperança.

5) O que ainda falta para Teixeira de Freitas desenvolver um circuito mais sólido, com eventos frequentes, gravações, estúdios acessíveis, formação artística e oportunidades profissionais dentro do cenário hip-hop?

Sendo direto, acredito que, apesar da nossa união de sempre, ainda faltam compromisso de alguns MCs e participação de parte do público com o movimento, uma vez que ele é extremamente importante aqui.

Não faz muito tempo que Teixeira figurou entre as cidades mais violentas do Brasil no Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Então, o trabalho deve ser sério.

Quando criamos a batalha, também não tínhamos muito conhecimento sobre editais, ofícios e outras ferramentas. Agora estamos mais ligados e buscando formas de pedir apoio à prefeitura para melhorar os equipamentos, promover formação artística e desenvolver projetos que nos permitam fazer isso com constância, pois fazer tudo sozinho é muito difícil.

6) A Batalha do Faraó reúne competidores, mas também cria um público que aprende a ouvir, interpretar e valorizar a linguagem do rap. Como vocês trabalham para que a batalha não seja apenas um espetáculo de rivalidade, mas também um espaço de formação cultural e fortalecimento dos artistas locais?

Na verdade, não temos nada consolidado do tipo: “Hoje vai ser um momento para formação política, cultural”, por exemplo. A educação por meio da arte acontece de forma espontânea e bem livre.

A questão da rivalidade nunca foi um problema para nós. Erguemos a batalha em uma situação em que nem sequer havia batalhas na cidade. Então, nosso maior rival é a possibilidade de ela deixar de existir novamente.

Nossas rimas são carregadas de conteúdo político, social, histórico e humorístico, e isso gera formação por si só. Mas pretendemos, sim, consolidar essa formação, agregando mais conhecimentos.

7) O hip-hop nasceu como uma forma de expressão de comunidades que raramente tinham espaço nos meios tradicionais de comunicação. Em Teixeira de Freitas, quais realidades sociais, conflitos ou experiências da periferia ainda precisam ganhar mais espaço nas letras dos MCs?

Acho que as religiões de matriz africana deveriam ser mais pautadas. Teixeira tem mais de 100 terreiros, e muita gente nem sabe da existência deles. Muitos MCs frequentam esses espaços, mas têm receio de falar sobre isso por medo, devido à pressão que o sistema impõe. Como eu disse, Teixeira é uma cidade bem conservadora.

Outro ponto é o uso de drogas. Há muitos lugares chiques e ruas famosas em Teixeira nos quais as pessoas usam drogas, a polícia passa e finge que não vê. Mas, quando isso acontece em bairros como Castelinho, Liberdade e São Lourenço, a situação é diferente.

8) Muitos artistas independentes conseguem movimentar praças, mobilizar jovens e manter projetos culturais ativos sem contar com apoio permanente. O que a trajetória da Batalha do Faraó revela sobre a relação entre o poder público e a cultura hip-hop no município? Que tipo de política cultural faria diferença de verdade?

Revela que conseguimos reinar e reexistir com ou sem alvará, mas que, com o alvará e o apoio da prefeitura, poderíamos otimizar muito o nosso trabalho.

No momento, acredito que uma política que nos ajudasse com uma divulgação mais ampla, que possibilitasse custear os artistas e comprar equipamentos, seria fundamental.

9) Pensando nos próximos cinco anos, que futuro você gostaria de ver para o hip-hop de Teixeira de Freitas? E o que está sendo realizado atualmente para chegar a este objetivo?

Gostaria de ver a cidade de Teixeira sendo representada fora, em duelos estaduais e nacionais, pois temos talento e capacidade para fazer isso.

Também gostaria de ver mais crianças e mulheres fazendo rap. Temos, sim, mas ainda são poucas, e isso precisa mudar.

Hoje, seguimos fazendo o trabalho com união e comprometimento para um dia chegar a esse ponto. Estamos no caminho certo, sabe?